sobre nós o que é igreja emergente?

Moltmann por Milani

“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” A integral produção teológica de Jürgen Moltmann pode ser considerada uma interpretação desta frase evangélica, que constitui a linha mestra de sua theologia crucis. A partir das reflexões conduzidas em O Deus crucificado, o teólogo alemão, já docente junto às Universidades de Tübingen e Bonn, apresenta um Deus capaz de sofrer com o homem e pelo homem, um Deus que aceita pôr-se em jogo junto à criatura. Mas, a morte de Cruz não é a última palavra: se é verdade que “Cristo Jesus é aquele que morreu e, além disso, ressuscitou” (Ro 8,34), então a vitória vale mais do que a derrota e se abre para Moltmann a possibilidade de uma teologia da esperança, que põe em seu centro a manhã de Páscoa e a Ressurreição de Cristo.

A relação entre a Cruz e a Ressurreição, o (presumido) fim da história, o ecumenismo e o estado de diálogo inter-religioso, o problema do mal radical e o tema de uma “teologia do gênero” são argumentos sobre os quais solicitamos a opinião do conhecido teólogo protestante.
Jürgen Moltmann foi entrevistado por Claudia Milani e o texto foi publicado pela revista italiana Jesus, setembro de 2007.

Eis a entrevista :

Professor Moltmann, o senhor é um dos maiores teólogos alemães vivos. Outro teólogo alemão importante, que hoje é Papa, escreveu recentemente um livro sobre Jesus de Nazaré. O que pensa deste livro? Já o leu?

Não, ainda não o li, e por isso não posso sequer pensar nada de positivo ou negativo a seu propósito.

No último livro de Ratzinger, e mais em geral em toda a reflexão teológica do atual Pontífice, é sublinhado o elo entre o cristianismo e a cultura helenística: o senhor também é de opinião que este elo seja tão importante?

Este elo é importante para a Europa, mas não o é para o cristianismo extra-europeu: ou seja, ele representa o percurso do cristianismo no mundo romano-helenístico, com o qual se chega à fusão entre cristianismo e pensamento grego, que Joseph Ratzinger evidenciou. Não se refere, no entanto, à cristandade síria, à cristandade persa, àquela armênia e a que se situa fora deste círculo cultural: por isto, este elo é correto somente se vier delimitado. E, em segundo lugar, este é o paradigma medieval de Tomás de Aquino, mas não o paradigma moderno do novo conceito de razão de Immanuel Kant, de Hegel e do pensamento científico moderno. Por isso, esta concepção é historicamente correta e eu a aceito historicamente, mas ele não representa o pensamento moderno e a síntese entre cristianismo e pensamento moderno.

Então o senhor pensa que não exista uma só forma de cristianismo, e sim diversos modos de ser cristão?

Sim, quando se vai à África ou à Ásia, fica claro que há um cristianismo constantiniano e um não-constantiniano.

O pensamento de Jürgen Moltmann poderia ser definido como uma “teologia da esperança”, a partir de um dos seus textos mais importantes. Mas, qual teologia da esperança e qual teologia em geral são hoje possíveis, numa época na qual, como diz Fukujama, podemos falar de “fim da história”?

Fukujama se enganou e ele próprio o entendeu: não se tratava do fim da história. Ele dava uma interpretação particular de Hegel, segundo a qual a história teria chegado ao fim e não haveria mais contradições. Após o desmoronamento da União Soviética não se via mais nenhuma contradição em confronto com o mundo capitalista democrático do Ocidente. Entrementes fizemos, no entanto, a experiência de outras contradições, em particular entre o mundo ocidental e o mundo islâmico: então, não chegamos realmente ao fim da história. Além disso, do ponto de vista teológico, somente a vinda de Cristo põe fim à história: até aquele momento não estamos satisfeitos”.
A este propósito podemos dizer que a Europa e, mais em geral, o Ocidente, vivem hoje o urgente problema do diálogo com as religiões não cristãs, especialmente com o islã. O senhor vê possibilidade de uma abertura neste campo, ou crê num endurecimento das religiões?
Para um olhar sobre o islã seria preciso solicitá-lo aos cristãos que vivem nos países islâmicos. Não dirigir-se ao cristianismo europeu, e sim aos cristãos coptas no Egito, aos sírios na Síria, e assim por diante. Quanto sei, não existe um diálogo entre muçulmanos e cristãos no Egito, embora os muçulmanos sejam, com freqüência, convidados a Milão para dialogar. Como se os cristãos vivessem somente na Europa: e isto não é verdade!”

O senhor é um teólogo protestante, mas, como outros teólogos da Reforma, foi considerado também um inspirador da teologia católica. O estado de saúde do diálogo ecumênico não parece ser hoje muito bom. Qual é seu diagnóstico a respeito?

O protestantismo é apenas minha proveniência, o ecumenismo é meu futuro. Por isso, não me interessa se alguém é católico ortodoxo, ou metodista: quero formular uma teologia cristã, por isso aproveito com prazer idéias também do mundo católico ou do ortodoxo. O diálogo ecumênico entre Roma e o protestantismo não goza, no momento, de boa saúde, como também aquele entre teólogos evangélicos e ortodoxos. Em maio estive na Romênia, em Alba Julia, e encontrei um grande acordo precisamente sobre as difíceis questões da doutrina trinitária e da cristologia. E, além disso, no flanco esquerdo do protestantismo, há também o grande movimento pentecostal, que deve ser incluído no diálogo ecumênico. Não se trata de seitas, como freqüente e intencionalmente o definem os bispos católicos na América latina, e sim de um extenso movimento pentecostal com uma nova experiência do Espírito Santo. Ele indubitavelmente também comete erros, mas é sempre assim no mundo, e com este movimento devemos procurar um diálogo. Se o diálogo não vai adiante com Roma, é preciso encontrar uma outra solução.

Sua teologia é muito atenta aos desafios do presente, ao resgate dos débeis ante os poderosos e mesmo aos problemas ecológicos. O que representa para o senhor a dimensão política da teologia?

Johann Baptist Metz e eu, em 1967-68, inauguramos o significado político da nova teologia perante Auschwitz. Não deve mais acontecer no cristianismo que não se reaja abertamente a tal crime contra a humanidade. Devemos intrometer-nos onde é venerada a morte e destruída a vida: é isto que entendíamos por teologia política. Não queríamos uma politização da teologia, mas uma espécie de teologia profética”.

Seu discurso teológico se confrontou freqüentemente com o problema do mal, em particular com aquele mal radical que foi a experiência de Auschwitz: que resposta o senhor deu, ou procurou dar a este problema? Como ainda se pode crer depois de Auschwitz?

E em quem se deve crer depois de Auschwitz, senão em Deus? Se disséssemos “Depois de Auschwitz não se pode mais crer em Deus”, então Hitler teria aniquilado não só o povo judeu, mas também o Deus de Israel: e que o Deus de Israel risse de Hitler, eu propriamente não o creio. Esta não é uma idéia minha, mas do meu amigo Emil Fackenheim, o qual diz que após Auschwitz é preciso crer em Deus, pois de outra forma se daria vitória póstuma a Hitler. Mas, também para mim isto vale como um postulado. O texto O Deus crucificado é minha resposta a Auschwitz e ao horror que eu mesmo vivenciei durante a guerra”.

Deste ponto de vista, qual é para o senhor o valor da Cruz? Que significado tem a morte de Cristo para Deus Pai, de um lado, e para o homem de hoje, do outro?

Em primeiro lugar seja dito que Cristo não morreu somente pelos pecadores, mas, sobretudo pelas vítimas dos pecadores. Formulei esta idéia junto com a teologia da libertação: na teologia dos pecadores nós vemos sempre somente os culpados que praticam o mal, se arrependem e encontram a Graça. Mas, o que é feito das vítimas? Disto se falou demasiado pouco até hoje. Mas, Cristo se tornou homem e foi crucificado para poder viver com aqueles que estão sob a sombra da Cruz, o povo dos crucifixos, como disseram Ellacuría e depois Sobrino. Esta é a primeira passagem: Cristo carrega os pecados do mundo, Cristo carrega os sofrimentos do mundo. E a segunda passagem é aquela de ver um elo entre a Crucifixão e a Trindade, já que Jesus morreu com o grito “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” (Mt 27,46; Mc 15,34) e, portanto experimentou o abandono de Deus e Deus Pai experimentou a dor pela morte do Filho. Cristo viveu a morte no abandono, o Pai sobreviveu à morte do Filho: esta é a situação da Sexta-feira santa, que Hans Urs von Balthasar descreveu de maneira tão profunda e à qual a Páscoa dá a resposta.

Qual é a visão de Moltmann sobre o homem contemporâneo?

Do homem moderno tenho a impressão que ele não ame a vida de modo correto: por isso faz experimentos com embriões e fetos, como se fossem o primeiro estágio da vida humana e não dos seres humanos verdadeiros e próprios. A humanidade deve ser respeitada também no seu estágio originário, adâmico: isto é para mim mais importante do que as pesquisas seminais para as doenças dos anciãos ou para a demência. No mundo moderno, no qual se sobrevoa por cima de tudo, dever-se-ia reforçar o amor pelos estágios iniciais da vida. Isto é importante também em relação ao terrorismo do mundo islâmico. O mulah Omar e os talibãs no Afeganistão disseram: “O vosso povo ama a vida, os nossos jovens amam a morte”. Isto é puro fascismo. Um dos generais fascistas de Franco gritou uma ocasião a um soldado seu: “Viva a morte”; este era também o grito das SS e é uma coisa insuportável. Ao contrário, o amor pela vida deve ser tão forte a ponto de fazer-nos protestar contra a morte também quando não diz respeito a nós pessoalmente, mas apenas aos israelitas em Israel e aos palestinos em Gaza.

Sua reflexão teológica se desenvolveu durante décadas também a partir do diálogo teológico com sua esposa, Elisabeth Moltmann Wendel: que diferença vê no pensar a teologia “como casal”, e com respeito a quem argumenta na solidão?

Não existe um pensamento na solidão, o pensamento teológico é sempre um diálogo: um diálogo com os outros, sobretudo com irmãos e pais, mas também com mães e irmãs. Nós iniciamos uma teologia de diálogo entre homens e mulheres, também com as nossas quatro filhas e isto trouxe muitos frutos. Mais frutuoso de quanto poderia ser fazer teologia somente entre homens, porque estes são apenas cinqüenta por cento da humanidade, e também porque quatro olhos vêem melhor do que dois.

Fonte: IHU

Conheça o original aqui.

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