Ryan Bell, o pastor da Igreja Adventista do Sétimo dia em Hollywood, convidou o filósofo/teólogo Peter Rollins para uma conferência de dois dias chamada “Além do Evandalismo” no prédio de sua igreja.
Em sua palestra Peter Rollins discutiu um número de coisas importantes para a igreja: o gesto irônico e o fetichismo. De acordo com Rollins, o problema com “missão” e a igreja é que nós tentamos trazer pessoas para dentro de nossos prédios, trancando e assustando-os para acreditar/doutrinar. Ele apontou que o desejo humano é melhor experienciado em um triângulo. Nós precisamos de um terceiro (algo ou alguém) para lhe contar nossa fantasia/desejo/experiência.
Ele contou a estória sobre dois estranhos que foram os únicos sobreviventes de um naufrágio e estavam encalhados numa ilha deserta. Depois de muitos meses eles começaram a se tornar amigos: inicialmente eles ressentiram-se por serem as únicas pessoas na ilha. E finalmente em certa noite eles se divertiram muito. Na manhã seguinte o rapaz pareceu um pouco cabisbaixo e então a garota perguntou se algo tinha dado errado, o rapaz não pode se explicar. Então ele teve uma idéia: pediu à garota que botasse um bigode e uma peruca e o encontrasse debaixo de uma árvore. Ela achou que isso era realmente estranho mas decidiu continuar. Quando ela, parecendo um homem, encontrou-se mais tarde com o cara, ele disse:” Ei camarada, você não consegue adivinhar com quem eu tive sexo na última noite!”.
Esta estória ilustra que geralmente o prazer só pode ser aproveitado quando é compartilhado com outros.
Geralmente Deus preenche essa triangulação para os cristãos. Deus preenche o espaço para que “ nos possamos dormir à noite”. Deus se torna uma muleta em qual nos encostarmos para que não tenhamos de encarar a áspera realidade da vida, que geralmente parece sem sentindo. Rollins disse, “Queremos que Deus seja esse terceiro, para que possamos colocar nossas projeções, e nos manter longe de encarar nossas questões.
Este era o propósito essencial de Bonhoeffer também. Ryan Bell em suas reflexões sobre a palestra escreveu:
“ Em seu tempo, Bonhoeffer fez a observação de que Deus estaria sempre no retiro, com menos e menos poder, reduzido à uma idéia – simplesmente uma explanação do que nós não podemos explicar. Nós precisamos que Deus nos ajude a encarar o mais provável, que a vida é sem sentido, que todos que amamos irão morrer, que nós viemos do nada e vamos para o nada. Então, Deus é empurrado para as margens, não somente de nossas vidas, mas também da sociedade, até o ponto em que Deus não tenha mais poder.”
Na modernidade, deus se torna intelectualizado. Nós vamos à igreja acreditando que enquanto estamos lá, aquilo é o que acreditamos intelectualmente, mas quando deixamos o local somos “ateus práticos”. Não vivemos o resto da semana como se realmente acreditássemos. Nossa fé está intelectualizada ao ponto que podemos criticar as práticas sociais enquanto estamos nos engajando nessas práticas sociais. Pense naqueles influenciados pelo movimento verde que criticam os grandes carros, mas dirigem tanto quanto ou mais em seus pequenos e veículos mais eficientes do que aqueles bebedores de gasolina. Invés de perguntar, “por que eu possuo esse carro?”, ou “Por que eu dirijo tanto?”, eles intelectualizam a sua paixão por sustentabilidade para que então eles não tenham que acreditar de uma maneira que iria realmente mudar sua prática.
Isto é o que Rollins chamou de gesto irônico. Esse sentimento vai contra o que Pascal defendia. Que não se importava com o que as pessoas acreditavam desde que vivessem de acordo com um mundo onde Deus existe.
O que aconteceu em nossa forma de missão é que por trazer pessoas para dentro da igreja e fazê-las certas de que acreditam com segurança e sem medo, a igreja acaba tendo que crer por elas. Os rituais, o pastor, os sacramentos, todos crêem por nós. Estas coisas se tornam o terceiro no triângulos. Elas creem no Domingo/Sábado para que nós não tenham que crer no resto da semana.
Isso acontece quando a igreja se torna um fetiche. Um exemplo de um fetiche é o dinheiro. Nós sabemos que o dinheiro não é mágico mas continuamos vivendo como se pensássemos que fosse. Um fetiche “nos previne de experienciar a verdadeira realidade de nossa situação social.” A igreja como um fetiche que nos permite continuar com nossos trabalhos horríveis,relacionamentos abusivos, corrupções antiéticas, etc. Então afim de realmente encontrar Deus e libertar essas pessoas precisamos remover a igreja.
A primeira resposta à isso, e a mais provocativa, e dizer que precisamos remover a igreja para que então as pessoas estejam livres para encarar a realidade e acreditar por elas mesmas. Mais isso seria apenas a antítese do problema. O que são precisas em vez disso são potentes “práticas poderosas” como James McCaledon as chamou, que estão enraizadas tanto em crer e praticar. Nós precisamos de comunidades que interrompam o fluir do terceiro e nos empurrem para confrontar a realidade de Deus e encontrar a Cristo.
Que tal a igreja interromper esse gesto irônico? E que tal se Deus fizesse isso com nossas igrejas?
Conheça o original aqui.
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