A falta de dúvida gera orgulho, e orgulho gera queda.
Onde está o sábio? Onde está o escriba? Como podemos saber que um sistema é válido? Um Deus compreendido não é Deus algum! Uma revelação estática, e definitiva, não é revelação alguma. A Bíblia é a palavra de Deus à medida em que Deus permite que seja Sua Palavra, à medida em que Deus fala através dela no desenrolar dos tempos.
A fé cristã não é uma forma religiosa do platonismo, aristotelianismo, idealismo, absolutismo, existencialismo, ou qualquer outro-ismo.O cristão deve sempre questionar o que crê , e nunca desanimar em desconstruir e reconstruir sua crença, quando necessário, porque está convicto de que Deus é o Deus de toda a verdade.
Se há uma coisa que se destaca em nosso panorama de mais de mil anos de debates entre os filósofos e teólogos no mundo ocidental, é que nenhum sistema de filosofia ou teologia já se revelou completo e perfeito. De fato, poderia ser dito que aqueles sistemas que, tais como o Idealismo e o Dogmatismo, têm feito as maiores reivindicações quanto serem compreensivos e completos, são precisamente aqueles que são os mais defeituosos. Em intervalos quase regulares no decurso dos séculos, alguém topa com uma idéia que tem algum direito a ser considerada verídica. Passa então a ser aumentada em sistema que, segundo se pensa, é capaz de explicar tudo. É aclamada como a chave para destravar todas as portas. Mais cedo ou mais tarde, porém, seus defensores se acham obrigados a negar a existência de tudo quanto a chave deixa de destravar, ou a confessar que ela não é bem tudo quanto imaginavam que fosse. Por algum tempo, o sistema parece arrastar tudo consigo. Finalmente, porém, as pessoas ficam desiludidas, e experimentam alguma novidade – Por isso sempre digo: “de omnibus dubitandum” [de tudo duvidar] é algo para apostar.
O que freqüentemente acontece tanto na teologia quanto na filosofia, é que alguém acha por acaso alguma coisa que já há muito tempo passado desapercebida, ou sente a necessidade de esclarecer algum aspecto da experiência ou de relacioná-lo com o pensamento “ pós-moderno”. Os racionalistas do século XVII sentiam a necessidade do raciocínio claro e da demonstração racional. Os idealistas do século XIX sentiam a necessidade de relacionar a totalidade da experiência a uma causa espiritual ulterior. Kierkegaard no mesmo século sentia que a explicação dada pelos idealistas deixava fora de consideração o indivíduo e a vida real. No século XX Cornelius Van Til, Karl Barth e Francis Schaeffer, gastaram um bom tempo reiterando suas considerações sem realmente explicá-las. Em todos estes casos, os respectivos pensadores ficaram tão impressionados com seu discernimento específico que o edificaram num sistema mais ou menos rígido que virtualmente destruiu sua utilidade original.
Não se quer dizer com isto que nenhuma crença nunca seja válida, e que nada possa verdadeiramente ser conhecido. Pelo contrário, nos impulsiona a uma fé misteriosa, que eleva à Deus e sua Palavra. Trata-se do seguinte: se há alguma coisa que devemos aprender da história, da teologia e da filosofia, é que devemos acautelar-nos contra adotarmos um só grupo de idéias absolutas ao ponto de excluir as demais, e devemos ser críticos em nossa avaliação de todas elas. Assim como nenhum ser humano por si só tem conhecimento exaustivo de toda realidade, embora talvez tenha discernimentos parciais e válidos neste ou naquele campo da experiência, assim também nenhuma teologia abrange tudo. Seus discernimentos e métodos freqüentemente são tentativos e provisórios. Talvez tenha uma apreensão válida disto ou daquilo. Seus métodos talvez sejam frutíferos em explorar certos campos específicos. Se porém, formos sábios, ficaremos precavidos contra sistemas definitivos e métodos alegadamente onicompetentes de abordagem. Enfim, nos agarraremos na dúvida, no amor, na fé e na esperança, porque Deus é Deus, e nós somos homens.
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