O Thiago Bomfim escreveu uma postagem essa semana chamada Photoshop na Celulite da Igreja, comentando sobre algo que eu tenho pensado com uma certa frequência nos últimos meses: a tentativa de fazer uma plástica na imagem da igreja para deixá-la bonitinha e atrativa. Na verdade, meus pensamentos têm sido mais específicos, direcionados para a criação dessa imagem na divulgação de igrejas e ministérios por meio da internet. Antes que qualquer pessoa pense que eu seja contra o uso da internet para divulgação da igreja/ministério, deixe-me afirmar que não sou. Muito pelo contrário, na Era Google, não há como fugir da presença na internet. Todavia, o que me preocupa (e um dos motivos que fez com que tirássemos nosso site do ar há meses para uma reformulação total) é como nós utilizamos desta ferramenta poderosa de comunicação.
No meio missionário, há anos que ouço o termo “números evangelásticos” para se referir aos exageros cometidos ao relatar o resultado de uma campanha evangelística. Tinha 100 pessoas, mas o relatório diz que tinha 250… 500 ou 1000! Convivendo com pastores, cansei de ouvir relatórios mentirosos de suas igrejas, exagerando o número de membros, freqüência de cultos, batismos, etc. Acabei de acessar o site de uma igreja, e um vídeo anunciando um evento tinha um narrador com uma voz “poderosa”, cheia de eco e efeitos, como se o recado viesse do além. Até mesmo um artigo sobre o relatório de estatísticas de acesso na internet denunciava como alguns marqueteiros mentem sobre o números de acesso/visitantes, divulgando, na verdade, o número de hits em seus sites (geralmente 10 vezes maior do que o número real de visitantes).
Recentemente estava ouvindo uma entrevista com Eugene Peterson e percebi que esse parece ser um fenômeno global. Ele falava sobre seu primeiro pastorado e sobre como os pastores mentiam em seus relatórios nas convenções. Há trinta anos George Verwer falava sobre a mentira do exagero, essa tendência de aumentar os números/estatísticas (ou simplesmente dizer que fez jejum, leu a Bíblia e orou, quando não fez nada disso), como um sinal de pseudodiscipulado. O que me parece é que a pressão para ser bem sucedido, relevante e atrativo pode se tornar uma armadilha, levando a tais exageros e mentiras. Ou fazer o que Bomfim apontou em sua postagem: usar um Photoshop para dar uma imagem cool na igreja/ministério, eliminando suas celulites.
Lendo Seth Godin (Tribes e The Dip), me deparei com o título de outro livro seu que foi um sinal de alerta para mim: All Marketers Are Liars (todos os marqueteiros são mentirosos). Não li esse livro e não sei o que Godin diz exatamente sobre os marqueteiros serem (ou não) mentirosos, mas de qualquer maneira fiquei pensando se, na ânsia de embelezar a igreja, transmitir algo e atrair pessoas para “nossa” causa, não escorregamos em alguma mentira (ou “mentirinha”) e acabamos criando igrejas e ministérios “evangelásticos”.
Em So Beautiful, Leonard Sweet fala sobre Cristianismo APC, referindo-se a um medicamento muito usado pelos militares nos EUA na década de 1950 que prometia o alívio para tudo. Tinha um problema porém, o APC causava dependência. E o pior, mais tarde descobriu-se que o uso prolongado desse medicamento levava à morte. Ou seja, o APC de fato funcionava, mas era uma armadilha mortal a longo prazo.
Creio que o marketing mal utilizado (mentiroso) pode ser um reflexo desse Cristianismo APC. Mente-se para atrair, crescer, ser bem sucedido. Mente-se porque se propaga algo que não é verdadeiro, algo ilusório, superficial. A imagem é bonita, mas não há substância por trás da mesma. Atrai pessoas, vira notícia, causa toda a impressão de ser um sucesso. E como o sucesso vicia, então é preciso continuar mentindo para mantê-lo a qualquer custo. Com o passar do tempo, os resultados geralmente são catastróficos.
Nas palavras de Leonard Sweet: “Algumas coisas podem fazer sua igreja crescer rápido e grandemente em meses e anos, entretanto, com o passar de décadas podem ter efeitos debilitantes no corpo de Cristo, e até mesmo matar você se não matar seu espírito.”
Que Deus nos ajude a nos livrar de toda e qualquer mentira sobre nós mesmos e nossas igrejas, a buscar a honestidade e realidade no modo como nos apresentamos aos outros (seja na internet ou de qualquer outro modo) e, acima de tudo, encontrar a liberdade para ser quem Deus nos chamou para ser, livres da necessidade de ficar nos comparando com esse ou aquele ministério ou igreja.
Conheça o original aqui.
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